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Por que a Ficção Científica Brasileira é invisível e marginalizada?

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Um panorama sobre a atual literatura de ficção científica brasileira. O texto foi preparado para o painel “O silêncio da crítica e a marginalização da ficção científica brasileira: Ficção e realidade dentro do espaço que o gênero ocupa na literatura brasileiran no simpósio “Invisibilidade – Encontro de Ficção Científica”, realizado no Itaú Cultural.

Marcello Simão Branco - 16/04/2008

No dia 2 de setembro de 2006 foi realizado no Itaú Cultural, em São Paulo, o simpósio “Invisibilidade – Encontro de Ficção Científica”. Organizado pelo escritor Roberto de Sousa Causo, constituiu-se num evento como há muito não se via na comunidade brasileira dedicada ao gênero. O nível dos debates e seus participantes revelou-se além das melhores expectativas, assim como a boa participação do público, que permaneceu das dez da manhã às oito da noite acompanhando os painéis sobre vários aspectos relacionados à dificuldade de inserção da ficção científica literária e também cinematográfica junto ao mercado e o público em geral.

O texto que apresentamos foi preparado para o painel “O silêncio da crítica e a marginalização da ficção científica brasileira: Ficção e realidade dentro do espaço que o gênero ocupa na literatura brasileira”. Ao meu lado esteve a Professora Doutora em Letras da Universidade de São Paulo, Maria Elisa Cevasco e o editor do suplemento de cultura do Diário Catarinense, Dorva Rezende. Sua publicação se justifica por dois motivos. Primeiro, como uma amostra de alguns dos temas que foram debatidos. E em segundo, por servir de exemplo sobre algumas das principais idéias e argumentos que defendi – ao lado de Cesar Silva – nas duas primeiras edições do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, referentes aos anos de 2004 e 2005. Antes de aparecer aqui, foi publicado no Anuário 2006.

* * *

Creio ser interessante iniciar esta conversa procurando responder ao título provocativo de um artigo do crítico e escritor Fausto Cunha, intitulado: “A Ficção Científica no Brasil – Um Planeta Quase Desabitado”.

O texto, publicado no livro No Mundo da Ficção Científica, do professor universitário americano L. David Allen, em 1975, faz uma recapitulação das origens do gênero no Brasil, situando-o como de importância marginal na literatura brasileira e intermitente quanto ao volume de sua publicação, baseada em sua maioria em autores estrangeiros.

Veja que o texto é de 33 anos atrás. Na época ainda havia algumas editoras publicando o gênero, até com séries específicas, como a Hemus, a Expressão e Cultura, a José Olympio e a Francisco Alves, fora outras editoras importantes que o publicavam também como a Nova Fronteira, a Brasiliense e a Record.

E anda assim, Cunha dizia que a ficção científica no país era um planeta quase desabitado, se referindo principalmente aos autores brasileiros, que ele situa como tendo o melhor momento nos anos 60, por meio das coleções de livros editadas por Gumercindo Rocha Dorea, na GRD, e Álvaro Malheiros, na Edart.

Nesse sentido, agora no início do século 21, a ficção científica brasileira ainda seria um planeta quase desabitado?

Creio que com o movimento de fãs e escritores do início dos anos 80, naquilo que já foi identificado como a Segunda Onda da FCB, o gênero no Brasil começou a ser mais habitado, para usar o termo de Cunha, mas mesmo com mais de 20 anos de vida, ainda seria de uma espécie difícil de ser encontrada. Como se vivesse no subterrâneo, no fundo de um oceano ou uma região de difícil acesso.

E quais as razões desta ‘marginalização’ e desta ‘invisibilidade’? Certamente há várias, creio que relacionadas com aspectos internos à ficção científica e externos a ela.

Para aqueles que a cultuam e praticam o discurso de preconceito e marginalização é recorrente, procurando situar o problema fora de seus muros. Desta perspectiva, o gênero seria discriminado porque 1) as pessoas não gostam de ciência e a tomam como uma leitura difícil; 2) as pessoas acham que é uma literatura escapista ou alienada, que reproduz valores estranhos à sociedade brasileira, sendo não mais do que um sub-produto da indústria cultural capitalista e 3) seria difícil levar a sério uma ficção científica escrita por brasileiros, já que o país tem problemas de educação e falta de investimento em ciência e tecnologia muito graves.

É possível defender que ao menos parte destas três razões apontadas principalmente pelo fã do gênero, tenha perdido um pouco de seu vigor. Primeiro, porque os assuntos científicos estão inseridos no cotidiano das pessoas, num país quase totalmente urbanizado e integrado internacionalmente como o Brasil. Segundo, porque a ficção científica não é apenas entretenimento, podendo discutir e refletir sobre grandes questões do nosso tempo e a partir de uma perspectiva ora distanciada, ora metafórica. Terceiro, porque embora o país ainda tenha um longo caminho a percorrer em direção a uma educação básica de qualidade, o parque industrial brasileiro é o maior do Hemisfério Sul, as universidades brasileiras possuem algumas conquistas científicas importantes e, mais do que um símbolo, o Brasil é um dos poucos países do mundo que já enviou um homem ao espaço.

Estes são os chamados problemas externos ao gênero no Brasil, principalmente do ponto de vista dos fãs, mas haveria também alguns que estão situados em seu interior. Estes mais controversos e difíceis de serem comparados com os externos, pois se referem a uma realidade particular de uma pequena, mas combativa comunidade de fãs e escritores forjados em seu meio. Em todo caso, os tais problemas externos de certa forma justificariam uma postura mais defensiva e auto-centrada por parte daqueles que cultuam e praticam o gênero no Brasil. Desta forma, criam sua própria sub-cultura, não por acaso utilizando o nome estrangeiro de fandom (domínio do fã) para se auto-intitular. É uma marca desta geração em sua criação e desenvolvimento ser muito semelhante às suas congêneres estrangeiras, especialmente no que diz respeito às suas instituições, como clubes, fanzines, prêmios e convenções. Por pelo menos uma década todas funcionaram relativamente bem, algumas com muito boa qualidade. É possível dizer que a comunidade brasileira de ficção científica tem procurado se integrar e participar de uma comunidade internacional dedicada ao gênero.

O vigor do fandom já foi bem maior, especialmente entre os anos de 1986 e 1997, mais ou menos, isto é, a partir do surgimento do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) até o início da internet. Mas em parte esta estrutura, antes de mais nada social, ainda sobrevive. E construiu mecanismos importantes para organizar suas atividades, fomentar a criação literária e intelectual, descobrir novos talentos e forjar uma identidade própria à si mesma e, por extensão, à ficção científica brasileira. O problema é que esta comunidade, a título de se defender do mundo externo, digamos assim, meio que se enquadrou numa espécie de guetto, por vezes com atitudes pouco profissionais, nos quais a atividade da crítica, por exemplo, tem sido severamente desestimulada, quase como se fosse um ambiente de patota, dos amigos que escrevem e não podem ser francos uns com os outros para não ferir suscetibilidades. Outro problema, decorrente em parte deste é a falta de pressão para se escrever melhor, porque não existe um cenário profissional que estimule a competição entre os autores por textos e histórias de melhor qualidade. Ou seja, é uma comunidade que passou a gradativamente desestimular um desenvolvimento artístico mais maduro e profissional.

Apesar disso, pode-se afirmar que é nesta geração que está o melhor grupo de autores brasileiros já surgidos para a ficção científica, devido ao seu contato íntimo com as tradições e convenções do gênero, de sua inserção cotidiana em um mundo high-tech e globalizado e pela procura de uma voz mais brasileira para o gênero. Alguns destes autores estão, inclusive, presentes ao evento de hoje. Mesmo assim o fato é que eles continuam, em larga medida, imersos em um injusto ostracismo.

Alguns pensaram que com a entrada da internet a comunidade se abriria e poderia se tornar mais visível. Contudo, o que se tem visto até agora é que o principal efeito da internet na comunidade brasileira de ficção científica é a pulverização. De um lado, houve uma segmentação, com a criação de grupos e sites específicos que terminam por não se comunicar com outros. De outro, e isto é em tese positivo, é que a internet, assim como o advento de novas tecnologias de impressão, tem barateado os custos de publicação a níveis mais baixos do que no passado. Mesmo assim, tanto os livros virtuais, como aqueles impressos por métodos econômicos continuam restritos aos seus públicos de sempre, ou seja, o ambiente intra-muros, invisível do fandom.

Há um outro fator importante e atualmente mais dramático para a invisibilidade e marginalização da ficção científica brasileira: não se publicam mais tantos títulos de ficção científica, não ao menos identificados como tais. A crítica mais comum por parte dos fãs é que não se publica mais o gênero no Brasil. De fato a quantidade diminuiu já sobre uma base de edições historicamente modesta.

Mas o que eu e o editor Cesar Silva temos constatado à frente do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica nestes últimos três anos é que se por um lado a quantidade diminuiu, o que mais chama a atenção é que a ficção científica continua sendo publicada. Mas de uma outra forma. Ou seja, várias editoras publicam alguns poucos títulos por ano, mas não os identificam na capa ou na folha de rosto com o rótulo ‘ficção científica’ tão ao gosto dos fãs. Não é só. Os livros que têm sido publicados têm duas características básicas. Primeiro, são aqueles derivados de outras mídias, como o cinema e a TV. Segundo, são livros de ficção científica escritos por autores não identificados com o gênero. Geralmente nomes ilustres e prestigiados do chamado mainstream que se aventuram em escrever uma obra com tema de ficção científica.

Ao que parece uma nova tendência do mercado editorial é que o gênero tenha de ser como que ‘autorizado’ por uma figura do mainstream para que as editoras brasileiras se interessem em publicar o livro. Mas jamais sendo vendida como “FC” e sim como a literatura de ‘prestígio’ de sempre de determinado autor.

Só para ilustrar em 2005 – de acordo com o nosso levantamento – foram publicados 178 livros dos gêneros fantásticos no Brasil. Destes, 62 foram de ficção científica, 34,83% do mercado. 23 livros foram escritos por brasileiros e 39 por estrangeiros. E dos 23 de autores nacionais, tivemos 8 novos romances. Já entre os romances inéditos de autores estrangeiros tivemos 9 novos publicados no Brasil.

Como se percebe são números modestos, mas não indicam, em tese, uma total marginalidade do gênero. O que ocorre é que, como acabei de dizer, não se publica mais ficção científica nos moldes tradicionais de coleções – uma tradição forte na história da ficção científica brasileira. E se tem publicado pouquíssimos autores identificados diretamente com o gênero. Para ser ter uma noção da situação, até autores best-sellers, verdadeiros clássicos do gênero, como Isaac Asimov e Arthur Clarke, extremamente publicados nos anos 70 e 80 do século passado, estão praticamente fora do catálogo das editoras.

Já as duas dezenas publicadas pelos autores brasileiros, seguem o padrão da ‘marginalização’ das grandes editoras e da imprensa cultural, que os tornam ‘invisíveis’. Saem por editoras pequenas, ou regionais ou por edição do próprio autor ou ainda só na internet. Ou seja, continuam sendo consumidos pelo mesmo público restrito de sempre.

Alguém pode questionar que em termos de quantidade sempre se publicou pouca ficção científica no Brasil. Mas nos anos 60, 70 e 80, como já disse, existiam coleções de livros do gênero no Brasil. A publicação era pequena, mas regular e com os autores tradicionais do gênero. Já com relação aos autores brasileiros, só foram publicados com alguma regularidade nos anos 60. Sem dúvida, tanto que a Primeira Onda da FCB foi justamente nomeada por Fausto Cunha em seu já citado artigo, como a ‘Geração GRD’, uma homenagem ao editor Gumercindo Rocha Dorea, que publicou vários autores brasileiros não do gênero, mas para o gênero, isto é, os trazendo de fora, do mainstream, para escreverem ficção científica, como o caso do próprio Cunha, de Dinah Silveira de Queiroz, André Carneiro, Antonio Olinto, Rubens Teixeira Scavone e outros.

Mas voltando ao ponto. Nos dias que correm a publicação de ficção científica deixou de ser um dos segmentos editoriais das editoras brasileiras, como o eram até o fim dos anos 80. Se olharmos para os chamados gêneros fantásticos, o único que tem sido amplamente contemplado nos últimos anos é a fantasia. Mas é uma tendência sólida? Talvez não, porque ela tem uma espécie de ‘vício de origem’. O mesmo que tem dificultado a publicação de ficção científica no Brasil. Estou me referindo ao que poderíamos chamar de uma ‘midiatização’. Isto é, a publicação de livros dos gêneros fantásticos por causa do sucesso comercial de uma obra produzida e veiculada por outra forma de arte. Para ser claro, estou me referindo ao cinema e suas superproduções de Hollywood. Se um filme de ficção científica ou de fantasia faz sucesso, a história que deu origem ao filme, ou a novelização do roteiro ganha o interesse das editoras. Até com séries de TV de sucesso o fenômeno se repete, com a publicação mais que discutível de tais novelizações, nos quais a originalidade e a qualidade literária não existem.

Nesse sentido, o atual boom da fantasia teria este ‘vício de origem’, que seria os megasucessos dos vários filmes baseados em O senhor dos anéis e Harry Potter. E como tal, a sustentação literária, per si, seria de difícil manutenção. Curiosamente, Fausto Cunha no mesmo artigo, escrevendo em meados dos anos 70, alertava que a quantidade razoável de ficção científica que era então publicada se devia aos sucessos de filmes no cinema, como 2001, uma odisséia no espaço, aos efeitos ainda presentes da corrida espacial e a figuras mundialmente conhecidas, como Arthur Clarke e Isaac Asimov.

Hoje em dia, curiosamente no século XXI!, não temos mais homens desbravando o universo e escritores de ficção científica que sejam celebridades globais. Pense rápido e responda. Qual é o autor de ficção científica surgido nos últimos 30 anos conhecido em todo o mundo?

De qualquer forma este é um aspecto menor, pois poderíamos identificar razões, digamos, mais profundas para a marginalização da publicação de ficção científica no Brasil. Uma destas razões seria a falta de editores, jornalistas e acadêmicos no meio editorial. Quer dizer, lideranças intelectuais engajadas em torno de um projeto idealista, ligado à ficção científica. Pode parecer utopia esperar que isso exista, mas é só olharmos para as décadas de 60 e 70 e ver quem estava à frente das melhores coleções de ficção científica publicadas no Brasil. Ora, o crítico Fausto Cunha, o editor Gumercindo Rocha Dorea, o produtor cultural José Sanz e o escritor e jornalista Jerônymo Monteiro. Ou seja: por incrível que nos pareça hoje, tal situação já existiu no cenário cultural brasileiro. Buscar as razões para a ausência de tais figuras atualmente é tarefa para um trabalho próprio de pesquisa, mas talvez possamos especular que os 20 anos de ditadura militar tenha alguma coisa a ver com o problema.

A partir do início dos anos 80 surgiu uma nova geração, a maioria de jovens na faixa dos 20 e poucos anos e com uma carreira ainda por construir, seja no campo literário em si, seja em paralelo com outros ramos profissionais. Ou seja, perdeu-se o elo e uma tradição que já existia no meio editorial brasileiro. Nos dias de hoje há pouquíssimas pessoas vinculadas em algum momento ao fandom que tenha um papel de liderança na área editorial e possa, por meio dessa influência, publicar ficção científica.

Mas ainda não falei da publicação dos autores brasileiros do gênero. Me referi até agora ao problema geral, que é grave e em parte é um dos motivos da invisibilidade dos autores brasileiros que se exercitam no gênero. Como já disse, talvez só nos anos 60, por causa das figuras idealistas de dois editores é que os autores brasileiros foram publicados quase em pé de igualdade com os estrangeiros. Mas uma peculiaridade destes autores é que, em sua maioria, eles já tinham uma carreira literária própria, sancionada pelo mainstream e finada as experiências editoriais da GRD e da Edart voltaram a escrever literatura em geral, e não mais ficção científica. Aqui também talvez a ditadura militar tenha tido uma influência maléfica, pois nos anos 70 a FCB que se publicou no país nem era identificada como tal, mas sim como alegorias críticas futuristas ao regime fechado então vigente e por autores totalmente desvinculados com as tradições do gênero.

Já a geração atual tem enfrentado ao longo dos anos as várias dificuldades apontadas. Desde a má qualidade de alguns escritores, o que não pode deixar de ser enfatizado, até uma marginalização ocasionada, primeiro pelas tendências ‘midiáticas’ do mercado editorial, segundo pela falta de figuras importantes que tivessem como apostar no gênero.

A situação chegou a tal ponto que no fim dos anos 90 foram feitas tentativas por parte de fãs e escritores para levar adiante projetos profissionais. Exemplos são a criação da editora Ano-Luz em fins de 1997 e as revistas Quark e Sci-Fi News Contos, em 2001. Pela editora foram publicados cinco livros, quatro deles antologias temáticas com autores quase todos nacionais. Deixou uma marca importante em termos de proposta, mas não conseguiu distribuir seus livros e nem visibilidade na imprensa, resultando, alguns anos depois no fim da iniciativa. Já as revistas foram ainda mais efêmeras, durando pouco mais de um ano e enfrentando problemas semelhantes aos da editora.

Certamente que a responsabilidade pelo fim das atividades de ambos os projetos é fruto, em boa medida, da falta de experiência e tino comercial dos seus integrantes. Mas cabe também a um mercado refratário e a uma imprensa desinteressada, uma responsabilidade pelo fim dos projetos. Talvez seja possível dizer que a imprensa cultural é mais desinformada do que o ambiente acadêmico. Ou que neste último as razões para o estranhamento com relação à ficção científica sejam mais bem elaborados e conceitualmente justificados.

No conjunto, a imprensa dos cadernos culturais vive numa espécie de frágil equilíbrio entre pautar ou ser pautada em suas páginas. Procura seguir o que o mercado apresenta, seja aqui do Brasil, seja do exterior. De novo falando em termos genéricos, tem pouca capacidade de análise crítica, mais fazendo resumos pouco melhores do que ‘relises’, do que interpretando de fato uma determinada obra. Razões de ordem comercial e de insuficiência intelectual seriam as de maior relevância, para explicar a maneira superficial e quando não preconceituosa como o gênero é retratado.

Para um autor de ficção científica ter um certo prestígio na imprensa cultural ele tem de ser chancelado pelo cânone ou por uma eficiente estratégia de marketing da editora que lança a obra do autor. Existe uma falta visível de figuras com grande cultura geral, articulistas ou ensaístas, gente como o próprio Fausto Cunha, o crítico José Paulo Paes, ou um jornalista culto e simpático ao gênero como Geraldo Galvão Ferraz, entre outros poucos também marginalizados dos cadernos culturais. Na média o que viceja são textos breves, superficiais, além do lugar-comum que vincula a ficção científica a estereótipos superados, como os do robô, do alienígena ou da nave espacial, como sendo o que o gênero teria de reconhecível.

Dentro deste contexto desfavorável, a publicação de ficção científica no Brasil, tanto de autores estrangeiros, como principalmente de brasileiros teria de ocorrer em várias frentes possíveis, seja pela presença de editores – e não gerentes de marketing nas editoras –, de intelectuais e jornalistas mais interessados em conhecer algo ao qual não foram formados ou não estão acostumados. Além de passar também, é claro, pela simples e eficiente melhora na qualidade da literatura de ficção científica escrita pelos brasileiros. Pois só com uma ficção científica preocupada com os valores e problemas de nossa gente, aliada com a busca permanente por aprimoramento também no estilo, é que ela pode almejar um reconhecimento e uma visibilidade mais segura nas Letras brasileiras, do que ficar na dependência das mudanças de humor do mercado editorial.


Marcello Simão Branco é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, e no âmbito da ficção científica é autor de Os mundos abertos de Robert Silverberg (Edições Hiperespaço, 2004) e co-editor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.


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