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Olá
amigo. A convite do Marco Bourguignon estou estreando uma coluna sobre o
gênero Horror para o site da Scarium. Não que eu me considere um
especialista no assunto, embora sempre tenha gostado de ver filmes de
horror desde pequeno. Lembro que acompanhava com uma mistura de medo e
fascínio a sessão "Calafrio", que era exibida sábado à
noite na TV Record de São Paulo, em meados dos anos 70. Passava
basicamente, os hoje clássicos filmes de horror da produtora inglesa
Hammer. Vários deles, sendo os mais marcantes A Maldição de
Frankenstein (1957), Horror de Drácula (1958), A Górgona (1964) e
Drácula, o Príncipe das Trevas (1966).
Era
difícil dormir no escuro – ou mesmo no claro! –, depois de assistir
estes filmes que – iria saber muitos anos depois –, reinterpretaram
um gênero então falido para o cinema, depois dos sucessos da produtora
americana Universal, nos anos 30. Chamava a atenção especialmente a
fotografia com um colorido vivo e contrastante, uma direção estilosa,
além de roteiros violentos e sensuais. E igualmente marcante devido às
presenças antológicas dos astros Peter Cushing e Christopher Lee...
Nos
quadrinhos comprava e lia, vez por outra, a revista Kripta, com
histórias realmente impressionantes, tanto pela qualidade do traço em
preto e branco, como do roteiro, inspiradas que eram em autores
clássicos da literatura como H.P. Lovecraft, Edgar Allan Poe, Frank
Belknap Long e Ray Bradbury, entre outros. E nos livros, meu interesse
foi bem mais tardio, já adulto, começando a ler muito Lovecraft e
Stephen King, entre alguns poucos outros, fazendo apenas uma ou outra
‘descoberta’ pessoal, como por exemplo no ano passado quando fui
apresentado a Algernon Blackwood. Bom, mas estes detalhes específicos
eu contarei numa outra oportunidade.
Por
ora, basta dizer que tenho alguma, digamos, intimidade com o gênero de
forma mais direta há pelo menos 15 anos. Isso porque, o meu fanzine, o
Megalon foi – pelo que me consta – o primeiro no país a explicitar
publicamente que o Horror era um dos gêneros a serem abordados em suas
páginas. E a idéia não foi minha e sim do amigo Renato Rosatti. É
que, quando propus a ele a criação de um fanzine de ficção
científica - em meados de setembro de 1988 -, ele me colocou a
condição de que co-editaria a publicação, desde que a FC dividisse
as páginas com o gênero de sua preferência, o Horror.
Aceitei
na hora, por também gostar do gênero, por permitir a participação do
Renato e também pela possibilidade de expandir tematicamente, entre os
fãs brasileiros de FC, um gênero afim, que é o Horror. Por sinal, o
próprio nome do fanzine procurou ser híbrido entre os dois gêneros,
ao escolhermos um dos monstros japoneses que enfrentaram o Godzilla,
numa clara mistura entre os dois gêneros.
Como
o Megalon nasceu sendo um fanzine voltado para o fandom de FC, houve
quem torcesse o nariz com a idéia de mesclar FC com Horror. O que era
(e é) mais comum para os fãs de FC é a mescla com a Fantasia. Mas a
nossa persistência mostrou-se frutífera, incentivando ilustradores,
articulistas e escritores de FC a também tentar explorar o terreno do
desconhecido sobrenatural.
Alguns
anos depois, o Renato deixou a co-editoria do Megalon. Criou seus
próprios fanzines, como o Juvenatrix, o Astaroth e mais recentemente o
Carnage. Mas se o efeito do Horror permaneceu entre meus interesses
artísticos e editoriais, meu ex-parceiro também absorveu um gosto
maior pela "minha parte", o seja a FC, também a incluindo
tematicamente em seus fanzines.
Minha
ligação com o gênero Horror, inclusive, foi além do mero interesse
temático do meu fanzine. Ao lado do amigo Cesar Silva – também outro
fanzineiro –, organizamos em São Paulo quatro Convenções
Multimídias de Horror, que ficaram popularmente conhecidas como
HorrorCon, entre os anos de 1995 a 1998. Foi um êxito esplêndido e
surpreendente. Centenas de pessoas compareceram em cada uma das quatro
edições do evento. Tivemos como convidados de honra, artistas de
talento
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reconhecido
como os cineastas José Mojica Marins e Ivan Cardoso, o quadrinista
Rodolfo Zalla e escritores como Braulio Tavares e Márcia Kupstas.
Vários videomakers amadores de todo o Brasil tiveram seu espaço
garantido, chamando, até, a atenção da grande imprensa paulistana,
tanto em jornais como também nas TVs. Inclusive, as convenções eram
anunciadas com reportagens de página inteira nos jornais paulistanos,
com uma chamada na primeira página de O Estado de S. Paulo, já em
1995.
Várias
‘tribos’ lá apareciam, desde escritores, cineastas e quadrinistas,
até jogadores de RPG, grupos de teatros amadores, metaleiros e
góticos. Após a quarta edição, resolvemos dar uma interrompida, por
causa de outros afazeres profissionais e por percebermos que a fórmula
do evento já começava por se repetir, perdendo um pouco seu caráter
de ineditismo e abertura de espaço para novos talentos. De qualquer
forma, ecos das quatro edições da HorrorCon repercutem ainda hoje, na
forma de contatos e pedidos para que voltemos a realizá-las. Quem sabe?
Nesse
meio tempo, ao lado do Cesar, editamos a revista HorrorShow, para a
editora Escala. Foram quatro edições durante o segundo semestre de
1996 e primeiro semestre de 1997. Com a publicação, abrimos um espaço
inédito para contos de horror numa publicação de cerca de 40 mil
exemplares. Também reforçamos institucionalmente uma comunidade
brasileira voltada mais especificamente ao gênero, com o surgimento de
vários artistas de todo o país e uma porção àvida de fãs. A
revista, porém, durou pouco. E, infelizmente, de 1998 para cá, não
tivemos mais convenções e nem revistas voltadas ao gênero do medo
inominável.
De
qualquer forma, tem ocorrido uma presença editorial razoável do
gênero nas livrarias nos últimos anos, além de alguns bons sites na
internet. Uma 'onda vampiresca' tem assolado as livrarias com romances e
relatos pseudoverídicos sobre os mitos e verdades do morcegão
chupa-sangue. Entre toda esta leva, destaco e recomendo ao menos a
aquisição de duas obras, dentre algumas poucas de real qualidade.
Uma
é o tratado O Livro dos Vampiros - A Enciclopédia dos Mortos-Vivos, de
J. Gordon Melton. Publicado pela editora Makkron Books, foi publicado
pela primeira vez em 1995 (a edição que eu tenho). Agora em 2003 saiu
uma edição revista e atualizada desta enciclopédia fundamental sobre
o tema do vampirismo nas artes e cultura popular de todas as regiões do
planeta. Mas suas 1020 páginas vão muito além do tema original,
servindo como um útil guia e fonte de informação sobre o Horror como
um todo, além de desmistificar o gênero como algo de primazia
anglo-americana, mostrando que o gênero têm raízes históricas e
populares muito profundas nas mais diferentes culturas ao redor do
mundo.
Minha
segunda indicação é o romance Os Sete (2001), escrito pelo prolífico
autor paulista André Vianco. Uma história competente, ousada e muito
bem narrada, sobre sete vampiros portugueses do século 16, que são
despertados no Brasil do fim do século 20. As cenas surpreendem pela
força e vivacidade, num relato sem concessões sobre o que os vampiros
fazem com meros seres humanos como nós. Não apenas por chuparem o
sangue mas, principalmente, por Vianco inovar apresentando poderes
especiais e únicos a cada um dos vampiros da história. Depois Vianco
escreveu uma continuação, Sétimo (2002), enfocando especificamente um
dos sete vampiros originais. Embora não tenha lido este, o quente mesmo
é Os Sete, por criar todo um universo ficcional novo e bem
desenvolvido. Em breve, deverei abordar especificamente este romance
neste espaço gentilmente cedido pelo pessoal da Scarium.
Marcello
Simão Branco é jornalista e cientista político. Edita o fanzine de
ficção científica e horror Megalon desde 1988, além de ser sócio da
Editora Ano-Luz e por ela, editar e organizar o livro de contos Outras
Copas, Outros Mundos, em 1998. Comentários e sugestões de temas para
esta coluna podem ser enviados para o seu e-mail: marcellobranco@ig.com.br. |
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