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Bram
Stoker escreveu o romance Drácula há pouco mais de um século
(março de 1897), ambientando a história entre Londres e o centro da
Europa, mais precisamente numa região conhecida como Transilvânia. Sua
inspiração certamente foi o conde Vlad Tepes que realmente existiu
nessa região durante o século 15, e tinha uma especial predileção
por empalar seus inimigos sentido o gostinho de sangue de cada um deles.
Para aqueles que acreditam que a vida imita a arte, não é que no
século 20 iria vir exatamente das regiões centrais da Hungria um
sujeito que iria interpretar no teatro e no cinema o mais clássico de
todos os vampiros até hoje?
E
seu nome é Bela Lugosi (Pronuncia-se Bai-la). Para sempre identificado
como drácula em toda a sua vida a partir da peça Drácula que
estrelou em 1927 na Broadway em Nova York. O sucesso foi estrondoso,
tirou do anonimato o jovem ator húngaro que fazia apenas papéis
secundários de vilão em vários filmes mudos no cinema alemão e
americano. A Universal Pictures comprou os direitos usando Lugosi para
negociar com a viúva de Stoker. Apesar disso ele não era a primeira
opção do filme Drácula, que foi exibido em 1931. A vaga era de
Lon Channey que morreu deixando o espaço para Lugosi estourar como
drácula vindo diretamente das obscuras e tenebrosas montanhas e
castelos da Europa Central.
O
diretor Tod Browning não mudou muito o estilo da história contada nos
palcos, preferindo um ritmo lento, sem trilha-sonora, em que o
aprofundamento dos diálogos e da psicologia dos personagens se
sobrepunham às mordidelas do morcegão chupa-sangue. Lugosi
impressionou demais como drácula, ajudado pela publicidade da peça,
pela curiosidade de ser húngaro e de ter criado um estilo que se
identificou facilmente com a imaginação apavorada dos espectadores.
O
filme Drácula tornou-se uma referência obrigatória nos filmes
de horror. E para Lugosi significou uma marca com a qual ele não
conseguiu se livrar jamais, indo além de sua vida artística,
influenciado até seu comportamento pessoal pelos anos seguintes.
A
encarnação de Vlad Tepes que aterrorizou Hollywood nasceu Bela Blasko
em 20 de outubro de 1882, em Lugos, Hungria a apenas 80 quilômetros da
Transilvânia. Em 1893 abandonou os estudos e a família para se
aventurar com uma companhia teatral. Os atores foram embora e Lugosi
(adotou este nome numa referência à cidade em que nasceu) deu duro
para viver trabalhando em minas e numa ferrovia. Não abandonou,
contudo, o sonho de atuar, aparecendo em pequenos papéis no teatro
húngaro já em 1902.
Bela
interrompeu sua vida artística devido à Primeira Guerra Mundial, só
retornando em 1917. Nessa época já era muito identificado com papéis
de vilões, talvez por sua face quadrada, sisuda, e seus pequenos e
penetrantes olhos negros. Fugiu da Hungria em 1920, devido à sua
oposição ao regime político da época, indo parar na desolada
Alemanha com a maior inflação do planeta. Fez alguns filmes por lá e
tomou o rumo da América onde se estabeleceu com asilo político
concedido por este pais.
E
foi também nos Estados Unidos que Bela Lugosi assumiu sua condição de
vampiro mais conhecido e popular até os dias de hoje, rivalizando com o
inglês Christopher Lee, a partir dos anos de 1960. Esta identificação
de Lugosi por drácula foi um pouco forçada pelo próprio ator que não
hesitava em aceitar vários papeis em filmes vagabundos sobre vampiros
apenas para ganhar uns trocados. Quando algum grande estúdio o chamava
para atuar, era só para ser drácula.
Ainda
tentou alguma coisa no teatro, mas a ‘maldição’ de Stoker o
perseguia e lá ia ele de novo, vestir a capa preta e aterrorizar lindas
donzelas em mais uma produção fajuta para matinês de sábado nos
cinemas lotados de Los Angeles. Durante os anos 30 e 40 Lugosi fez,
mesmo como vilão e drácula, alguns filmes notáveis, como Murders
in the Rue Morgue, de 1932, onde ele atuou pela primeira vez num
filme baseado em Edgar Allan Poe, repetindo a experiência em The
Black Cat e em The Raven, filmado em 1935. No ‘gato preto’
de Poe, ele fez parceria com Boris Karloff (de quem ele havia perdido a
vaga para interpretar Frankeinstein,1932), atuou em Island
of Lost Souls (1933), simplesmente a primeira versão do cinema para
a história de H.G. Wells, onde o doutor Moreau é interpretado por
Charles Leighton, e mais duas parcerias com Karloff: The Invisible
Ray (1936) e The Bodysnatcher (1945).
Entra
os anos de 1940 e o desgaste do horror como fonte de histórias para
Hollywood é indisfarçável. Filmaram demais nos anos 1930, um pouco de
tudo: dráculas, lobisomens, frankeinsteins, múmias, casas assombradas.
A formula estava batida, repetitiva e o caminho natural foi a reunião
de vários monstros num mesmo filme ou comédias satirizando os temas e
monstros clássicos. E Lugosi foi envolvido nesta decadência como se
fosse parte intrínseca dela. Mesmo assim atuou com destaque em filmes
dramáticos e comédias: aqui teve um ponto alto como um militar
soviético no clássico Ninotchka, 1939, de Ernst Lubitsh, onde
Greta Garbo fez seu último filme. Apesar disso estava marcado demais
como vilão, além do fato de não ser propriamente um galã, bem longe
de tipos que levavam suspiros às platéias femininas, como Clark Gable,
Cary Grant e Tyrone Power.
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Com
o esgotamento do gênero, Hollywood abandona as produções de horror.
Resultado prático para Lugosi: desemprego. Ele ainda tentou algumas
participações na TV no início dos anos de 1950, ou comparecendo em
cinemas de subúrbio ou cineclubes para apresentar pessoalmente a
reprise de seus filmes de monstros.
Conforme
muito bem retratado pelo ator Martin Landau (que levou o Oscar de
coadjuvante) no emocionante e nostálgico Ed Wood (1995, de Tim
Burton), Lugosi foi resgatado do total ostracismo pelo cineasta de
filmes Z, Ed Wood, Jr., que conhecia cinema e o tinha como ídolo.
Juntou a pena do velho vampiro com uma oportunidade de chamar a
atenção do público para suas fitas medíocres, e Ed Wood colocou Bela
para estrelar algumas de suas produções, como Glen or Glenda?
(1953) e Bride of the Monster (1955). Por essa época o máximo
que o público lembrava dele eram as reprises de seus filmes dos anos 30
e 40 nas madrugadas da TV.
Sua
saúde mental também se deteriora. Isolado no casarão em que morava em
Beverly Hills, Bela Lugosi se vestia como drácula para dormir e não em
uma cama, mas num caixão. Alcoólatra e viciado em morfina foi várias
vezes internado, com as despesas pagas por Ed Wood.
E
foi num dos filmes trash de Wood que Lugosi assinou seu epitáfio
como ator e ser humano. Em 1956, ele interpretou drácula em Plan 9
from Outer Space, um dos mais criticados filmes de todos os tempos,
a despeito de ter uma legião de fãs. Ele e uma vampira deveriam
representar uma casal de chupa-sangues retirados do túmulo por
invasores alienígenas do espaço. Uma semana depois do início das
filmagens, 16 de agosto de 1956, Bela Lugosi morreu. O filme prosseguiu
com outro ator fazendo as cenas com a capa de vampiro cobrindo o rosto.
Lugosi
é um exemplo triste de como o estigma de um personagem pode acompanhar,
marcar, e no caso dele, influir decisivamente na própria vida do
artista. Ele, que é ainda hoje o mais cultuado e aterrorizante drácula
da história do cinema americano, mordeu e sugou o sangue de tantas
vítimas em vários filmes e peças de teatro, levou uma lenta, profunda
e derradeira mordida da indústria cinematográfica, que acabou por
ceifar sua própria vida. O legado de Lugosi, a lenda que existe em
torno de sua figura só aumentou após sua morte, o fazendo um dos mais
carismáticos e importantes atores do horror até hoje.
Os
Principais Filmes de Bela Lugosi:
—
Dracula, 1931
—
Murders in the Rue Morgue, 1932
—
White Zombie, 1932
—
Chandu the Magician, 1932
—
Island of Lost Souls, 1933
—
Hollywood on Parade, 1933
—
The Black Cat, 1934
—
Mark of the Vampire, 1935
—
The Raven, 1935
—
The Invisible Ray, 1936
—
Son of Frankeinstein, 1939
—
Ninotchka, 1939
—
Black Friday, 1940
—
The Invisible Ghost, 1941
—
The Wolf Man, 1941
—
Ghost of Frankeinstein, 1942
—
Black Dragons, 1942
—
The Corpse Vanishes, 1942
—
Night Monster, 1942
—
Frankeinstein Meets the Wolf Man, 1943
—
The Ape Man, 1943
—
Return the Vampire, 1944
—
The Bodysnatcher, 1945
—
Scared to Death, 1947
—
Abbot and Costello Meet Frankeinstein, 1948
—
Plan 9 from Outer Space, 1959
Marcello
Simão Branco é jornalista e editor. Publica o fanzine de ficção
científica e horror Megalon desde 1988, além de ser sócio da Editora
Ano-Luz e por ela, editar e organizar o livro de contos Outras Copas,
Outros Mundos, em 1998. Comentários e sugestões de temas para esta
coluna podem ser enviados para o seu e-mail: marcellobranco@ig.com.br.
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