{OptionalArea}

Leia Também...

 

Para conhecer o premiado fanzine
Megalon

Scarium Home Page
Sombras à Espreita
15/02/2004

Bela Lugosi, condenado a ser Drácula
Marcello Simão Branco

Bram Stoker escreveu o romance Drácula há pouco mais de um século (março de 1897), ambientando a história entre Londres e o centro da Europa, mais precisamente numa região conhecida como Transilvânia. Sua inspiração certamente foi o conde Vlad Tepes que realmente existiu nessa região durante o século 15, e tinha uma especial predileção por empalar seus inimigos sentido o gostinho de sangue de cada um deles. Para aqueles que acreditam que a vida imita a arte, não é que no século 20 iria vir exatamente das regiões centrais da Hungria um sujeito que iria interpretar no teatro e no cinema o mais clássico de todos os vampiros até hoje?

E seu nome é Bela Lugosi (Pronuncia-se Bai-la). Para sempre identificado como drácula em toda a sua vida a partir da peça Drácula que estrelou em 1927 na Broadway em Nova York. O sucesso foi estrondoso, tirou do anonimato o jovem ator húngaro que fazia apenas papéis secundários de vilão em vários filmes mudos no cinema alemão e americano. A Universal Pictures comprou os direitos usando Lugosi para negociar com a viúva de Stoker. Apesar disso ele não era a primeira opção do filme Drácula, que foi exibido em 1931. A vaga era de Lon Channey que morreu deixando o espaço para Lugosi estourar como drácula vindo diretamente das obscuras e tenebrosas montanhas e castelos da Europa Central.

O diretor Tod Browning não mudou muito o estilo da história contada nos palcos, preferindo um ritmo lento, sem trilha-sonora, em que o aprofundamento dos diálogos e da psicologia dos personagens se sobrepunham às mordidelas do morcegão chupa-sangue. Lugosi impressionou demais como drácula, ajudado pela publicidade da peça, pela curiosidade de ser húngaro e de ter criado um estilo que se identificou facilmente com a imaginação apavorada dos espectadores.

O filme Drácula tornou-se uma referência obrigatória nos filmes de horror. E para Lugosi significou uma marca com a qual ele não conseguiu se livrar jamais, indo além de sua vida artística, influenciado até seu comportamento pessoal pelos anos seguintes.

A encarnação de Vlad Tepes que aterrorizou Hollywood nasceu Bela Blasko em 20 de outubro de 1882, em Lugos, Hungria a apenas 80 quilômetros da Transilvânia. Em 1893 abandonou os estudos e a família para se aventurar com uma companhia teatral. Os atores foram embora e Lugosi (adotou este nome numa referência à cidade em que nasceu) deu duro para viver trabalhando em minas e numa ferrovia. Não abandonou, contudo, o sonho de atuar, aparecendo em pequenos papéis no teatro húngaro já em 1902.

Bela interrompeu sua vida artística devido à Primeira Guerra Mundial, só retornando em 1917. Nessa época já era muito identificado com papéis de vilões, talvez por sua face quadrada, sisuda, e seus pequenos e penetrantes olhos negros. Fugiu da Hungria em 1920, devido à sua oposição ao regime político da época, indo parar na desolada Alemanha com a maior inflação do planeta. Fez alguns filmes por lá e tomou o rumo da América onde se estabeleceu com asilo político concedido por este pais.

E foi também nos Estados Unidos que Bela Lugosi assumiu sua condição de vampiro mais conhecido e popular até os dias de hoje, rivalizando com o inglês Christopher Lee, a partir dos anos de 1960. Esta identificação de Lugosi por drácula foi um pouco forçada pelo próprio ator que não hesitava em aceitar vários papeis em filmes vagabundos sobre vampiros apenas para ganhar uns trocados. Quando algum grande estúdio o chamava para atuar, era só para ser drácula.

Ainda tentou alguma coisa no teatro, mas a ‘maldição’ de Stoker o perseguia e lá ia ele de novo, vestir a capa preta e aterrorizar lindas donzelas em mais uma produção fajuta para matinês de sábado nos cinemas lotados de Los Angeles. Durante os anos 30 e 40 Lugosi fez, mesmo como vilão e drácula, alguns filmes notáveis, como Murders in the Rue Morgue, de 1932, onde ele atuou pela primeira vez num filme baseado em Edgar Allan Poe, repetindo a experiência em The Black Cat e em The Raven, filmado em 1935. No ‘gato preto’ de Poe, ele fez parceria com Boris Karloff (de quem ele havia perdido a vaga para interpretar Frankeinstein,1932), atuou em Island of Lost Souls (1933), simplesmente a primeira versão do cinema para a história de H.G. Wells, onde o doutor Moreau é interpretado por Charles Leighton, e mais duas parcerias com Karloff: The Invisible Ray (1936) e The Bodysnatcher (1945).

Entra os anos de 1940 e o desgaste do horror como fonte de histórias para Hollywood é indisfarçável. Filmaram demais nos anos 1930, um pouco de tudo: dráculas, lobisomens, frankeinsteins, múmias, casas assombradas. A formula estava batida, repetitiva e o caminho natural foi a reunião de vários monstros num mesmo filme ou comédias satirizando os temas e monstros clássicos. E Lugosi foi envolvido nesta decadência como se fosse parte intrínseca dela. Mesmo assim atuou com destaque em filmes dramáticos e comédias: aqui teve um ponto alto como um militar soviético no clássico Ninotchka, 1939, de Ernst Lubitsh, onde Greta Garbo fez seu último filme. Apesar disso estava marcado demais como vilão, além do fato de não ser propriamente um galã, bem longe de tipos que levavam suspiros às platéias femininas, como Clark Gable, Cary Grant e Tyrone Power.

Com o esgotamento do gênero, Hollywood abandona as produções de horror. Resultado prático para Lugosi: desemprego. Ele ainda tentou algumas participações na TV no início dos anos de 1950, ou comparecendo em cinemas de subúrbio ou cineclubes para apresentar pessoalmente a reprise de seus filmes de monstros.

Conforme muito bem retratado pelo ator Martin Landau (que levou o Oscar de coadjuvante) no emocionante e nostálgico Ed Wood (1995, de Tim Burton), Lugosi foi resgatado do total ostracismo pelo cineasta de filmes Z, Ed Wood, Jr., que conhecia cinema e o tinha como ídolo. Juntou a pena do velho vampiro com uma oportunidade de chamar a atenção do público para suas fitas medíocres, e Ed Wood colocou Bela para estrelar algumas de suas produções, como Glen or Glenda? (1953) e Bride of the Monster (1955). Por essa época o máximo que o público lembrava dele eram as reprises de seus filmes dos anos 30 e 40 nas madrugadas da TV.

Sua saúde mental também se deteriora. Isolado no casarão em que morava em Beverly Hills, Bela Lugosi se vestia como drácula para dormir e não em uma cama, mas num caixão. Alcoólatra e viciado em morfina foi várias vezes internado, com as despesas pagas por Ed Wood.

E foi num dos filmes trash de Wood que Lugosi assinou seu epitáfio como ator e ser humano. Em 1956, ele interpretou drácula em Plan 9 from Outer Space, um dos mais criticados filmes de todos os tempos, a despeito de ter uma legião de fãs. Ele e uma vampira deveriam representar uma casal de chupa-sangues retirados do túmulo por invasores alienígenas do espaço. Uma semana depois do início das filmagens, 16 de agosto de 1956, Bela Lugosi morreu. O filme prosseguiu com outro ator fazendo as cenas com a capa de vampiro cobrindo o rosto.

Lugosi é um exemplo triste de como o estigma de um personagem pode acompanhar, marcar, e no caso dele, influir decisivamente na própria vida do artista. Ele, que é ainda hoje o mais cultuado e aterrorizante drácula da história do cinema americano, mordeu e sugou o sangue de tantas vítimas em vários filmes e peças de teatro, levou uma lenta, profunda e derradeira mordida da indústria cinematográfica, que acabou por ceifar sua própria vida. O legado de Lugosi, a lenda que existe em torno de sua figura só aumentou após sua morte, o fazendo um dos mais carismáticos e importantes atores do horror até hoje.

 

Os Principais Filmes de Bela Lugosi:

— Dracula, 1931

— Murders in the Rue Morgue, 1932

— White Zombie, 1932

— Chandu the Magician, 1932

— Island of Lost Souls, 1933

— Hollywood on Parade, 1933

— The Black Cat, 1934

— Mark of the Vampire, 1935

— The Raven, 1935

— The Invisible Ray, 1936

— Son of Frankeinstein, 1939

— Ninotchka, 1939

— Black Friday, 1940

— The Invisible Ghost, 1941

— The Wolf Man, 1941

— Ghost of Frankeinstein, 1942

— Black Dragons, 1942

— The Corpse Vanishes, 1942

— Night Monster, 1942

— Frankeinstein Meets the Wolf Man, 1943

— The Ape Man, 1943

— Return the Vampire, 1944

— The Bodysnatcher, 1945

— Scared to Death, 1947

— Abbot and Costello Meet Frankeinstein, 1948

— Plan 9 from Outer Space, 1959

 

 

Marcello Simão Branco é jornalista e editor. Publica o fanzine de ficção científica e horror Megalon desde 1988, além de ser sócio da Editora Ano-Luz e por ela, editar e organizar o livro de contos Outras Copas, Outros Mundos, em 1998. Comentários e sugestões de temas para esta coluna podem ser enviados para o seu e-mail: marcellobranco@ig.com.br.

voltar para artigos | voltar para a capa

 

Todos os direitos reservados
©2004 Scarium Megazine