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Esteve em cartaz em novembro de 2004 na cidade de
São Paulo, o filme O Sétimo Selo (1956), do diretor sueco
Ingmar Bergman. Não perdi tempo, pois só estava sendo reprisado em uma
única sala e em um único horário no recentemente reformado cinema
Belas Artes, um dos mais tradicionais da capital paulista. Já havia
visto o filme há uns cinco anos, e desde então esta obra tem sido
recorrente em minha mente, especialmente em momentos de alguma reflexão
existencial.
O dramaturgo e cineasta Ingmar Bergman, nascido em
1918, em Uppsala, Suécia, é mundialmente reconhecido como um dos mais
influentes cineastas já surgidos. Destaca-se como tema recorrente de
sua obra uma busca transcendente, metafísica, sobre as razões da
existência humana e sua eventual ligação com algo além, Divino. Pois
bem. Em O Sétimo Selo, esta questão básica da vida é colocada
de uma forma frontal, crua e perturbadora, como poucas vezes vista no
cinema. E, para inserir e justificar o comentário desta obra dentro do
gênero Horror, o fato é que Bergman, em primeiro lugar, trata de um
tema que é horror em estado puro: a morte que espreita cada um de nós.
E em segundo, de uma forma mais direta, pois cobre a narrativa com
elementos fantásticos. Não o fantástico por si mesmo, mas como um
eficiente recurso de parábola alegórica, conferindo uma forte
impressão às questões refletidas. E chama a atenção também, o fato
deste filme ser um dos poucos de sua filmografia a abrir mão de um
tratamento essencialmente realista para os temas transcendentes que
aborda.
Filmada em belíssimo preto e branco, a história se
passa na Idade Média, contando a trajetória de regresso de um
cavaleiro, Antonius Block (numa interpretação marcante de Max von
Sydow) e seu escudeiro Jons, das Cruzadas, onde pela lâmina de suas
espadas haviam subjugado ‘infiéis’ em nome do Deus cristão.
Deprimidos e cansados, apreendem a inutilidade de suas ações, buscando
algum sentido para toda aquela matança e para o mundo sombrio que
testemunhavam. Uma época de perseguições religiosas, com pessoas
sendo rotineiramente queimadas vivas em praças públicas, além da
terrível chegada da Peste Negra (a peste bulbônica, transmitida por
ratos contaminados por pulgas infectadas).
Assim, o mundo estava imerso no medo, na
superstição e na presença cotidiana da morte, que a todos poderia
levar de uma hora para outra. A peste matava de maneira rápida e
dolorida e ceifou nesta época simplesmente um terço da população da
Europa. Em termos percentuais foi a maior tragédia da história humana
até os dias de hoje.
Bergman foi fundo no tema da procura de um sentido
para a vida, em um ambiente tão sombrio e macabro. O cineasta afirmou
certa vez em uma entrevista que "neste filme, o cavaleiro regressa
da cruzada como, em nossos dias, um soldado volta da guerra. Na Idade
Média, os homens viviam sob o terror da peste. Hoje vivem sob o terror
da bomba." Estava-se, então, em plena Guerra Fria, sob o possível
holocausto nuclear. Desta maneira, O Sétimo Selo pode ser
interpretado como uma alegoria do século XX e do mundo que ainda
vivemos, em forma de lenda medieval. "O tema é bastante
simples" – completa o diretor –, "o homem e sua procura
eterna de Deus, tendo apenas a morte como única certeza."
Participando das Cruzadas e testemunhando aquele
mundo intolerante e degradado, o cavaleiro Block quer uma explicação,
seja qual for, para entender que tudo aquilo que fez e que está
presenciando não é uma completa perda de tempo. Em suma, ele deseja
saber, e não crer.
Numa das seqüências explicitamente fantásticas –
que irá se repetir por todo o filme –, Block encontra a Morte, à
beira de uma praia deserta. Com rosto cadavérico, sob uma longa túnica
negra e carregando a temível foice em uma das mãos, Ela se anuncia
para levá-lo deste mundo. Mais surpreso por poder vê-la do que pelo
que isso significa, Block propõe um acordo: um jogo de xadrez. Caso ele
vença, a Morte lhe daria mais alguns anos de vida. A proposta é aceita
e eles vão, por todo o filme, travando um insólito duelo. Mesmo com
toda a bagagem de espectador de filmes de horror, esta presença da
Morte, personificada de uma maneira tão verdadeira, em um mundo tão
incerto e dilacerado, realmente me impressionou, não pelo medo em si,
mas pelas implicações do que a Morte realmente representa na vida de
cada um de nós.
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De retorno à Suécia medieval, os dois viajantes
travam contatos com diferentes figuras ao longo de sua jornada, como uma
jovem muda prestes a ser estuprada por um ladrão barato, uma procissão
liderada por uma seita religiosa composta por homens com roupas negras
com capuzes, conduzindo uma outra jovem para a fogueira sob a acusação
de bruxaria, acompanhados por leprosos amarrados, também à espera de
sua ‘purificação’. Esta cena é um dos pontos mais altos do filme,
aqui pelo grau de realidade histórica do que realmente aconteceu
naquela época.
À luz de fatos como estes, Block e Jons tornam-se
cada vez mais céticos e desesperançados e a partida de xadrez começa
a pender para o lado da Morte, não porque o cavaleiro jogue mal, mas
porque sua esperança sobre um sentido divino para a vida vai se
esvaindo. Antes de pender para o niilismo total, porém, ele encontra um
jovem casal de recém-casados com seu bebê, artistas itinerantes que se
apresentam em tavernas e praças públicas. E por meio da felicidade, da
simplicidade do amor exemplificada pelo casal, Block passa a vislumbrar
o único sentido que a vida pode apresentar: o amor entre as pessoas.
Cada vez mais presente, a Morte vai fazendo vítimas
à vista de Block. Ele sabe que sua hora está por chegar, desiste da
partida de xadrez e procura partilhar os últimos momentos de sua vida,
ao lado de pessoas que compartilhem alguma solidariedade em um mundo
tão sombrio e sem futuro como este.
Este filme, que não é de horror em termos estritos,
é muito efetivo no sentido de despertar no espectador sentimentos
centrais e incômodos: como a dúvida sobre a razão da vida e a
inevitabilidade da morte. Onde Deus entra nisso? Conforme o próprio
Block descobre, não há uma resposta definitiva. Ao invés, apenas o
aumento da dúvida, da angústia, especialmente em três momentos.
Primeiro, quando ele se aproxima da jovem ‘bruxa’ que será queimada
e lhe interroga, esperando encontrar Deus através do Diabo, mas no
olhar da torturada não vê nada além do medo. Depois, quando descobre
que um dos principais fundamentos da religião é a semeadura do medo.
Um homem contaminado pela peste pergunta a Jons se ele, de alguma forma,
pode aliviar sua dor. Em tom áspero, o escudeiro diz que se o homem
sente medo, deve correr para os braços dos padres. "Talvez eles
possam ter alguma explicação." Mas esta suposta explicação é
definitivamente desconsiderada, quando Block – numa cena antológica,
de tantas –, pergunta à própria Morte, qual o sentido da vida.
"Onde está Deus?" Para o seu choque, a Morte diz nada saber.
Fria como uma máquina, apenas está ali para executar seu trabalho:
retirá-lo do mundo. Bergman nos coloca aí diante da temível
condição do "nada".
Este é um dos filmes mais profundos que já assisti.
E suas discussões existenciais são ainda emolduradas por um estilo
brilhante, com a intensidade dramática já inerente ao tema, sendo
ampliada pela interpretação dos atores, pelo roteiro enxuto e
cortante, pela cenografia fiel à época, nas composições e tomadas de
câmara experimentais, além da música ora sussurrante, ora impactante
que pontua as diferentes situações da obra.
Mas o filme não termina como uma reflexão
pessimista da condição humana, que a nada restaria a não ser se
corroer de dúvida ante a fatalidade da morte. Isso porque, uma espécie
de esperança é vislumbrada, na presença do jovem casal de artistas e
seu bebê. O amor partilhado e a valorização de fatos simples e
solidários, conferem, assim, uma espécie de significado concreto à
nossa curta passagem pela Terra. E se na primeira vez que vi o filme,
deixei a sala cheio de dúvidas e melancolia, ao vê-lo de novo, me
senti existencialmente mais reconfortado, ao compreender um pouco melhor
a réstia de esperança concreta que Bergman transmite, especialmente na
ambígua e até lírica cena final desta obra-prima.
O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet), Suécia,
1956, 102 minutos. Direção e roteiro: Ingmar Bergman, baseado em sua
peça Pintura Sobre Madeira (1954). Produção: Allan Ekelund
para Svensk Filmindustri. Elenco: Max von Sydow, Gunnar Björnstrand,
Bengt Ekerot, Nils Pope, Bibi Andersson, Inga Gill, Erik Strandmark,
Gunnel Lindblom, Anders Ek, Bertil Anderberg, Gunnar Olsson e Inga
Landgre. Fotografia em preto e branco: Gunnat Fisher. Música: Erik
Nordgren. Montagem: Lennart Wallen. Cenografia: P.A. Lundgren.
Coreografia: Else Fisher. Continental, VHS e DVD.
Marcello Simão Branco é jornalista e editor.
Publica o fanzine de ficção científica e horror Megalon desde
1988. É autor do livro de ensaio literário Os Mundos Abertos de
Robert Silverberg (Edições Hiperespaço, 2004) e editou o livro de
contos Outras Copas, Outros Mundos (editora Ano-Luz, 1998).
Contatos através do e-mail marcellobranco@ig.com.br.
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