A Conspiração dos Imortais
Márcia Guimarães

Rio, 05 de novembro de 2005
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Por que Ficção Científica

Apenas em língua portuguesa, são 37.900 sites de ficção científica na Internet. Isto significa que há uma demanda reprimida ainda não convenientemente explorada pelas grandes editoras, e um nicho formado por milhares de apaixonados navegando por chats, editoras e livrarias virtuais, garimpando artigos e publicações, e invadindo a Infovia com suas criações inspiradas em mundos desconhecidos e seres fantásticos.

São escritores, cientistas, pesquisadores, cineastas, roteiristas, multimídias, desenhistas, historiadores, críticos, curiosos, leitores privilegiados ou, simplesmente, ávidos colecionadores entre 8 e 80 anos, formando um público fiel de consumidores exigentes que não hesitam em molestar incautos viajantes, encomendando-lhes os últimos lançamentos das editoras americanas e européias.

Vinda de uma geração moldada pela fábula política de H.G. Wells, Aldous Huxley e George Orwell, pelo Despertar dos Mágicos de Louis Pauwels e Jacques Bergier, pelas coleções da Planétè, pela aventura de Kubrick e Arthur C. Clark, pelas reflexões de Asimov, pela teosofia de Gurdjief e da Blavatski, pelo conto fantástico de Hoffmann e os questionamentos de Blade Runner profetizados pela transmissão radiofônica de Orson Welles - sem mencionar o Dr. Spock e a nave Enterprise- tive na ficção científica um escape onírico, um intervalo de lazer e descanso, distante daquele cânone literário que sempre considerei essencial à formação de um escritor.

Contista com dois livros publicados e premiados, qual não foi minha surpresa ao escolher, para estréia em romance, um gênero tantas vezes considerado menor e até mesmo desprezível por autores respeitáveis. Paciência. Mas o exercício mágico da projeção da vida, a liberdade de criar sem limites e a possibilidade de conectar-me ao inconsciente, sem sofrimento, foram das experiências mais fortes e ricas que já tive ao longo dessa longa jornada inferno adentro.


Sumário

Cinqüenta anos após a falência do sistema financeiro mundial, conhecido como Big Boom, e da Grande Guerra Genética - revolução biotecnológica liderada pela Burguess Incorporation - milhões de seres humanos foram jogados à margem da vida e despojados de quaisquer direitos aos benefícios científicos e sociais conquistados ao fim de século XXI.

Em uma Copacabana devastada pelo maremoto de 2039, dominada pela Fuck'in Company, pelos templos religiosos, por guerrilheiros, hackers, traficantes, terroristas e miseráveis, o rebelde negro Oz - Rei dos Mardingos - o jovem Werther, e o grão-mestre Davos tentam salvar a humanidade da perversa "limpeza genética" planejada pela Grande Corporação liderada por Herbert Granswille. E enquanto a ameaça de extermínio em massa paira sobre a multidão demenciada dos excluídos, la nave va à beira da maré gravitacional anunciada pela Física Nuclear.

A Conspiração dos Imortais é uma vertiginosa metáfora sobre a condição humana. São trinta e cinco capítulos de pura ação, nos quais se misturam assassinatos, seqüestros, implantes de chips, transmigração, teorias de reencarnação e ressurreição, Controle da Ordem Pública, nanotecnologia e projeções mentais, intrigas palacianas e uma desesperada busca de transcendência e de imortalidade.

Em A Conspiração dos Imortais, o gênero ficção científica dá a Márcia Guimarães liberdade para realizar uma profunda reflexão sobre as questões que ora tangenciam a história do Homem, com suas extraordinárias descobertas e conquistas no campo da Mecânica Quântica, da Cibernética e da Biotecnologia. A indagação que percorre as páginas deste romance incomum é, no entanto, se seremos incluídos entre os convivas da ceia do Senhor, ou lançados à lixeira do Inferno, onde apodrece a multidão de mardingos (criação semântica da autora para designar os zumbis que vagavam em massa pelas ruas, metade marginais, metade mendigos).

No inquietante cenário de uma Copacabana mítica e emblemática, com seus personagens transitando entre os subterrâneos do morro da Babilônia, os escombros do edifício Chopin e as arcadas reconstruídas do Copacabana Palace, materializam-se orgias pansexuais movidas a drogas químicas, biológicas e eletrongênicas, e cultos coletivos onde milhares de mardingos buscam a ilusão de um mundo depois da Morte.

John Kreuff, braço direito do poderoso Senhor da Burguess, Teresa de Ângelis, misterioso clone de Santa Rita de Cássia, a cientista Uber Dantzig, e o Papa Pedro III guardam o segredo dos destinos da humanidade. No Centro Subterrâneo de Amazon, no coração da única floresta preservada do mundo, o Sacro Sexteto irá se reunir durante a XXXIV Conferência Planetária de Líderes Religiosos para deliberar sobre a cláusula secreta: a danação ou a redenção dos excluídos.

Mas talvez seja tarde demais.


Ficha Técnica

Páginas 291
Capítulos 35
Palavras 72.525
Caracteres 447.572
Parágrafos 1.877
Linhas 6.524


Personagens

Davos

Alquimista da décima segunda casa do desenvolvimento biosensorial. O Homem da Opala Negra anunciado por Ogum irá conduzir o processo de auto-conhecimento de Werther e despertar, nele, a dolorosa consciência da sua própria humanidade.

Werther

Aos 18 anos, o jovem tem acesso ao arquivo que contem sua gênese e seu destino. O mistério de sua origem, uma vez decifrado, coloca em suas mãos o destino da espécie. Mas ele oscila perigosamente entre o amor e a indiferença pela raça humana.

Oz

O líder dos excluídos, hacker brilhante que aprendeu toda a ciência do século XXI através de velhos computadores catados nos lixos da cidade-luz. É o Rei dos Mardingos, capaz de congregar milhares de homens em uma rede planetária de terrorismo contra a perversa organização de John Kreuff.

Lully

Guerrilheira e amada de Oz, sensitiva que realiza projeções mentais e viagens astrais.

Uber Dantzig

Cientista que participa do projeto responsável pela Grande Guerra Genética. Seqüestrada no laboratório da Burguess, conhece o segredo da gênese de Werther e a força letal da Bacterium Aquosis.

John Kreuff

Chefe do Departamento de Controle da Ordem Pública, promoveu o implante de chips em massa que transformou bilhões de excluídos em seres inofensivos. Em nome de Granswille, coordena o plano de extermínio.

Pedro III

Ex-cardeal Lomumbo Babi, sócio nos negócios da Burguess Incorp., conhece a história secreta do Vaticano e a misteriosa morte de três papas. Sua liderança junto ao Sacro Sexteto - Concílio Ecumênico formado pelos seis maiores grupos religiosos-financeiros do planeta - poderá mudar o destino da humanidade.

E ainda, Herbert S. Granswille I e II, Teresa de Angelis, Bamboo, Zenon, o rabino Solomon Rusdhie, o babalorixá Zumbi Bambwee, o Dalai Chong-Chwei, Harum Bin Ravinsh, John McEnroy,

... e grande elenco


Curriculum Vitae/Resumo

MÁRCIA GUIMARÃES iniciou-se no jornalismo em 1969 na redação de O Globo, passando pelo Correio da Manhã, Última Hora, Jornal do Commércio, Tribuna da Imprensa, A Tarde (Salvador), revista Visão (sucursal Rio) e Estado de São Paulo (sucursal Rio).

A partir de 1985, como coordenadora do Departamento de Editoração da Fundação Rio, cria e organiza o Prêmio Rio de Literatura, realizando as categorias Poesia e Romance, e lança o tablóide Letras & Artes, posteriormente transformado no RioArtes Jornal. Em 1989/90 edita o Boletim Informativo do Conselho Federal de Cultura e inicia participação como jornalista/debatedora no Sem Censura, programa nacional de debates da rede Funtevê.

Em 1994 coordena e edita para o RioArtes o livro Memória - 12 Anos de Mostra, sobre a importância da Mostra de Novos Coreógrafos criada por aquela instituição.

Inicia-se na literatura em 1981com o livro O Rabo do Presidente, prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores, publicado pela editora Civilização Brasileira/Philobiblion. Publica contos esparsos na revista Status, na Tarde Cultural, no jornal Letras & Artes e no Caderno RioArte. Seu conto Piano,Pianíssimo é dramatizado na Casa de Cultura Laura Alvim como parte do projeto Anna Magnani, do Instituto Italiano de Cultura e acha-se em fase de tradução para integrar uma antologia de contistas brasileiros a ser editada na Suécia. Em setembro 1996 publica A Grande Marcha do Coronel Baldomero Sampaio (Editora Sette Letras), que recebe o prêmio Alejandro Cabassa, da União Brasileira de Escritores.

Seu mais recente trabalho individual foi publicado em maio de 1999 pela Editora Nórdica - Academias & Companhias, livro reunindo dezenas de crônicas humorísticas sobre os bastidores das academias de ginástica. O lançamento ganhou espaço na mídia e um convite para participar do Jô Soares Onze e Meia, tendo sua entrevista ido ao ar no dia 2 de junho desse mesmo ano.

Convidada por Livia Garcia-Roza a integrar uma antologia sobre o tema Fraternidade, participa, em 2003, com o conto Olho d’Água, do livro Ficções Fraternas, ao lado dos mais importantes contistas brasileiros da atual geração.

Formada pela Faculdade de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica/PUC, Márcia Guimarães realizou estudos na École Pratique de Hautes Études/Sorbonne (1983/84), completando o curso "Mythes et representation de Ia realité: lectures de filmes", sob a orientação da escritora, cineasta e professora Hélène Puiseaux.

Críticas

A Grande Marcha do Coronel Baldomero Sampaio
Editora Sette Letras
1996
109 pags.

"As obras-primas desta coletânea e como ficou dito, do conto brasileiro, são os citados "Pas-de-deux" e "Piano pianíssimo", nos quais ouvimos a voz de Katherine Mansfield, nominalmente citada. Mas, em Márcia Guimarães há algo mais, como se pode verificar à leitura do conto que dá título ao volume."

Wilson Martins
O Globo, 5/4/1997

" Márcia Guimarães não perde tempo com o acessório. Vai logo ao essencial. Seu conto começa já pulsante e arrebenta veias antes de esvair-se.(...) Sintética, galopante, atrevida, a arte narrativa de Márcia Guimarães nasce crítica, resultado de um espírito inquiridor, inquisitorial e contestador.(...)A prosadora tem revelações desse teor: "Ao relento, debaixo de um céu desesperadamente estrelado..." E: Uma única página bem escrita vale todos os nossos pecadilhos". E: Eram belos como o relincho do cavalo apavorado de Guernica". E: Entre ela e o espelho, apenas uma dor dilacerante, impenetrável como uma opala." Quem escreve ficção com esta desenvoltura devia ser lida e admirada. E ter editor permanente, se este país não praticasse a anticultura."

Hélio Pólvora
A Tarde Cultural, 12/10/1996

"Como Euclides da Cunha em "Os Sertões", embora de modo bem mais sintético e menos rebarbativo, a autora narra esses confrontos com detalhes assustadores. Ela afirma: "Resistiram, os homens do coronel Baldomero Sampaio, muito tempo. Lutavam como bichos, o instinto afiando garras. E um por um foi fertilizando o pântano com seu sangue empestado de vermes e bravura."(...) Seu mérito está justamente em contrapor a essa carga emotiva que os personagens trazem consigo um estilo firme e frio, nada apelativo, e em não permitir que a chamada terceira idade combine necessariamente com paralisia ou resignação. Para convencer um de seus adeptos a partir para o combate, o coronel Sampaio exclama: "A morte nos espera(...). Pois vamos a ela". Viço e velhice - essa fusão inesperada é o que confere robustez ao livro de Guimarães."

Bernardo Ajzenberg
Folha de São Paulo, 5/1/1997

O Rabo do Presidente
Editora Civilização Brasileira/Philobiblion
1985
116 páginas

Márcia Guimarães escreve como pouca gente no Brasil. Não há a adjetivação furibunda habitual, a coisa corre de substantivos a verbos a objetos diretos, é talento puro e simples, com que se nasce ou não. Leio ainda que ela vai lançar um livro pela Civilização Brasileira. É para manter o olho em cima."

Paulo Francis.
Diário da Corte/Folha de São Paulo
11/2/1984

Irreverente (a começar pelo título), o livro reúne dez narrativas cuja característica principal é a atualidade. Não a atualidade do modismo, e sim a força da tão falada realidade brasileira. (...) Este livro nos revela uma escritora de notável domínio da palavra.(...) E uma das grandes conquistas deste livro é que tal literatura, crítica, comprometida, é extremamente satírica, picaresca mesmo, revelando as paixões humanas mais fundas e contraditórias."

Marco Morel
Tribuna da Imprensa
Novembro/1985

Nestes últimos anos não tínhamos lido contos tão bem estruturados, recriados a partir de uma realidade fria e, de modo geral, enervante. Márcia transforma o cotidiano amargo sem deformá-lo, resgata-o naquilo que ele conserva de mais curioso ou até bisonho. Sua frase é irônica e forte, as expressões definem personagens, os fazem brilhar, Ter vida própria.(...) O texto de Márcia Guimarães é forte, por vezes brutal. O sangue circula no asfalto, tolda anseios, exalta paixões, em meio a gritos de dor e de miséria, tudo isso sob a cumplicidade de um sol luminoso e de noites sensuais.(...) Alguns contos deste livro são obras-primas.

José Louzeiro
Jornal do Commércio
Outubro de 1985

O Rabo do Presidente é um livro marcante, que colocará Márcia Guimarães na primeira linha da moderna ficção brasileira e gravará seu nome em nossa memória e em nossa estima literária.

Ênio Silveira

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